À procura de Amélie Poulain

  Certo dia li um artigo sobre a experiência transformadora de se viajar sozinho para qualquer parte do planeta com o simples intuito de se livrar da zona de conforto que nos envolve no cotidiano. Muito mais que um descanso de férias, compras no exterior ou pura diversão, a ideia era usar um período de trégua para descobrir a si mesmo em novas vivências desde que buscasse por algo que estimulasse o deslocamento.
  Levando em conta que o interesse por desbravar lugares inéditos é algo bem singular, que pode variar entre o encanto pelo castelo da Cinderela ao sofrimento nos caminhos de Santiago, segui minha fascinação cinematográfica por conviver, pelo menos por alguns dias, no cenário de onde veio pelo menos a metade dos filmes que assisti na vida. Pensei que Paris receberia um fã não somente pelos créditos de sua beleza e cultura, mas também porque, como devoto de Nossa Senhora de Amélie Poulain, aproximar do fabuloso universo de Jean-Pierre Jeunet seria um pretexto excelente para cruzar o atlântico por conta própria.
  Andar pelas ruas da “cidade luz” realmente provocou minha imaginação de Michel Gondry e a ansiedade de encontrar personagens de François Ozon ao redor, bem como deparar com belas mulheres usando guarda chuvas coloridos de Catherine Deneuve, passar em frente às escolas cheias de garotas com o cabelo de Adèle Exarchopoulos, admirar senhores andando de bicicleta de manhãzinha que nem Jacques Tati ou até interagir com todas as gerações Antoine Doinel num só dia. Foi assim que me dei conta que os momentos não eram de turista no frenesi em marcar território, mas de absorver aquilo que antes era somente fantasia. É impagável a sensação de percorrer os corredores do Louvre no jeito de Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel em Os Sonhadores de Bertolucci (ou melhor, Bando à Parte de Godard), do mesmo modo que voltar a ser criança na Torre Eiffel e me lembrar de Zazie no Metrô e correr pelos jardins de Versailles usando All Star e curtindo Strokes no headphone. De qualquer maneira, ainda assim, o melhor estava por vir.
  Depois de muita pesquisa e paciência, eu executaria o plano de seguir os passos Amélie embora a percepção das cores locais não fossem tão quentes quanto à do longa (o céu é azul às vezes, mas as nuvens não são em formato de coelho, ou talvez não tenha reparado). Vale a pena lembrar que a cidade colorida, captada pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel, teve inspiração nas obras do artista brasileiro Juarez Machado. E por falar em Brasil, não podemos esquecer que a pequena versão da protagonista, Flora Guiet, também é tupiniquim e reside em São Paulo! (até cheguei a comer framboesas em sua homenagem).
  Meu percurso se iniciou no centro da capital francesa, mais precisamente na Île de La Cité, devido à igreja gótica mais solene da nação. A catedral de Notre-Dame, cheia de história e resistência às revoluções, foi palco da grande tragédia na vida da menina ao perder a mãe atingida por uma pessoa que se joga de uma das torres. Os turistas não precisam temer tal episódio, já que existem redes para impedir o ato, restando apenas à apreciação da vista mais bonita da região (e uma escada de 400 degraus antes de estar lá).


Cathédrale Notre-Dame - île de la Citê
 

  Na sequência, entre o imenso Palais du Louvre e o Institut de France a famosa Pont de Arts pelos seus cadeados do amor apesar da reforma. Todavia, simboliza o instante de orgulho de Amélie por ter trazido de volta as pequenas lembranças do Sr. Bretodeau.


Pont des Arts - Louvre
 

  O diálogo entre os dois, do qual Dominique Bretodeau menciona seus repentinos 50 anos e reconhecimento na continuidade da vida, ocorre no café Le Verre a Pied, numa bonita área de comércio do Quartier Latin.


Le Verre a Pied - Quartier Latin
 

  Cercado de jardins, palácios, comércios e pontos turísticos, muitas das locações também estão em estações de ferroviárias espalhadas por diversos bairros. Como por exemplo, na République, existe a gare du Nord para eventuais visitas ao pai, enquanto na gare de l’Est o segredo da cabine fotográfica é revelado. Eu até vi uma delas bem no canto (sim, elas estão por todos os lados), mas me parece que o pátio da cena está cheio de lojas nos dias de hoje.


Gare du Nord - République
 

Gare de L'Est - République
 

Gare de L'Est e uma certa cabine fotográfica
 

  Ali do lado tem um local ótimo para passar uma tarde de sol e se distrair lançando pedras sob as águas do canal St. Martin.


Canal St. Martin - République
 

  Próximo ao Champ de Mars (aquele da Torre Eiffel) tem outra estação de nome La Motte-Picquet Grenellet onde os primeiros cartazes postados por Nino são vistos. A meu ver, eles são bem familiares ao de outra película francesa antiga chamada Les Vampires (1915), do qual vi exposto no museu da Cinemathèque Française.


La Motte-Picquet Grenelle - Front de Seine
 

Cartaz Amélie - Où et Quand?
 

Cartaz Les Vampires - Cinemathèque Française
 

  Em Montmatre, o distrito cerne da boemia e da arte, também abriga vários pontos consideráveis desta busca. Uma delas é a estação de metrô Abesses situada no coração do bairro. Depois de descer uma escadaria em caracol interminável, lá estava a cena do primeiro e súbito encontro com Nino, após oferecer uns trocados a um mendigo.


Gare Abbesses - Montmartre
 

  Ela volta a encontrar o mendigo cego quando decide guiá-lo até a estação Lamark Caulacourt na sua maneira frenética e detalhista de descrever a sua volta.


Gare Lamark Caulacourt - Montmartre
 

  Na parte de cima do monte a religiosidade está à espera no ponto turístico mais cheio da viagem: a basílica de Sacré Cœur, cuja escadaria serviu de espaço para o jogo de “gato e rato” do casal. Apesar de não haver cabine telefônica próxima ao carrossel, mas uma grande quantidade de turistas e vendedores de mini Eiffel, eu pude apontar dedo indicador para uma das lunetas no seu topo.


Sacré Cœur - Montmartre
 

Sacré Cœur - Montmartre
 

Quando o dedo aponta o céu, o idiota olha para o dedo.
 

  Por ironia, a parte de baixo fica a intensa diversão sexual da cidade, com direito aos mais renomados cabarés, sexshops e até um museu temático. A propósito, uma das lojas na boulevard de Clichy é o lugar em que Nino trabalha, bem próximo ao Moulin Rouge.


Boulevard de Clichy - Montmartre
 

  Os copos dançam sobre a toalha num restaurante perto do Moulin-dê-la-Galette, moinho de inspiração para Renoir criar sua tela mais importante, disponível aos olhos no último andar do Museé D’orsay. O grande pintor impressionista também faz parte do destino da moça, pois através do quadro “Le Déjeuner des Canotiers” (que infelizmente está em Washington) o homem de vidro sabe mais sobre seus sentimentos e a encoraja a enfrentar seus desafios.


Moulin-dê-la-Galette - Montmartre
 

  Supostamente nossa heroína mora num dos prédios da Rue des Trois Frères, próxima à frutaria do insuportável Sr. Collignon. Mas pode apostar que seu real proprietário tem uma profunda gratidão por ela ao reparar na lateral da venda com vários recortes de jornais e revistas apresentando o grande sucesso de público.


Maison Collignon - Montmartre
 

Merci Amélie
 

  Descendo a ladeira do moinho, existe um recinto muito especial com uma sala escura, propícia para observar a reação das pessoas enquanto elas assistem às imagens de uma tela grande.


Studio 28 - Montmartre
 

  Se continuar a descer, um pouco antes de chegar à boulevard de Clichy, numa simples esquina perpetua o bar que estava prestes a falir antes do lançamento do filme, mas que hoje é um dos estabelecimentos mais visitados do tão cobiçado bairro de Montmatre. Santuário para os devotos, o Café les Deux Moulins foi onde escolhi para ter o prazer de quebrar com a colher a camada de caramelo do creme brulée.


Santuário Café les Deux Moulins - Montmartre
 

Creme brulée - Café les Deux Moulins
 

Oratório de Sta. Amélie - Café les Deux Moulins
 

  E por fim, a rua Saint Vincent onde as moscas califorídeas batem suas asas 14.670 vezes no princípio e os casais apaixonados andam sorridentes de mobilete no final.


Rue Saint Vincent - Montmartre
 

  Foi assim, inspirado pela imaginação de dois roteiristas projetada numa sala de cinema, pude criar meu diário de bordo numa aventura inesquecível, da qual fico muito agradecido pelas pessoas que me ajudaram a saltar sem hesitar.

Deixo meu link do Flickr com o registro de outros preciosas imagens de Paris que não fazem parte desta fantástica saga:


Quinze
 

Outras referências virtuais que me auxiliaram nessa façanha:

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