Como foi assistir Império de Sol depois de 25 anos

 O tempo vai passando, as mídias vão se evoluindo, mas pra mim nenhuma delas consegue substituir a sala de cinema. Penso assim, porque o ritual de ir num lugar específico pra a exibição de filmes, como se fosse uma igreja, faz dele algo mais especial do que minha cômoda casa. Ultimamente com as vastas opções, não é viável passar por isso em cada um dos lançamentos. Então resta praticar meu processo de escolha chamado “O que vale a pena assistir hoje?”, para filtrar aqueles que não valham à pena, ou que ficam pra mais tarde, quem sabe. Mas essa segunda opção tem um dilema ainda maior quando vem aquela lamentação do tipo: “Putz, seria melhor ter visto no cinema”. Eu me arrependo por muitos, mas não tem jeito no caso dos grandes clássicos, por causa da idade ou simplesmente ainda não fazia parte deste universo. É… chorei muito aos 5 anos por querer ver Karatê Kid mesmo sabendo que não entenderia nada com aquelas letrinhas brancas na parte de baixo da tela.
 A disputa de um clássico por salas hoje em dia não deve ser tão difícil quanto lançamentos, a não ser pelas corriqueiras e saudosas mostras espalhadas pela cidade. Certo dia reparei no programa lançado pela rede Cinemark para exibi-los (acervo da Warner) em horários alternativos e com preços atrativos (mas nem tanto assim). As temporadas anteriores não haviam chamado a atenção, até que num belo passeio no shopping descubro que em agosto de 2014 iria passar um dos longas mais importantes da minha humilde vida: Império do Sol.
 Lançado em 1987, o trabalho de Steven Spielberg tinha uma proposta diferente de seus últimos arrasa quarteirões ao trazer a visão mais artística em conjunto com o roteiro adaptado da grande obra do britânico J.G. Ballard. Depois de alguns anos, quando ainda era movido a Trapalhões, pude assisti-lo em VHS por influência do meu pai e sua feliz escolha dentre vários títulos da saudosa locadora de vídeo. Às vezes fico pensando o por que este havia me chamado a atenção, mesmo com tanta coisa naquele tempo, como E.T. do próprio Spielberg. O que resta é reconhecer a identificação com o protagonista apesar de seu cenário felizmente não presenciado. Lembro que ficava confuso ao contemplar o garoto inglês perdido em Xangai, já que nem sabia onde isso ficava no globo terrestre. Também não entendia muito bem o que se passava em cada ato, muito menos se valia escrever um livro sobre críquete, mas tínhamos quase a mesma idade e a vontade de voar.
 Depois de muitas vezes via vídeo cassete e televisão aberta, enfim chegava o momento único que amplia todas aquelas imagens e diálogos muito bem decorados na familiar escuridão. A partir daí, comecei a lidar com o diálogo entre a presente versão remasterizada e minha memória aguçada como se fosse o critico de cinema e a criança com toda a vida pra aprender. Descobri os prós e contras de um registro que permanece o mesmo ao ser interpretado pela imaginação modificada pelos anos. Sabendo a seqüência de cada frame, a cada nota da trilha sonora ao paço do menino burguês, havia algo de novo desta vez.
 Por um lado, voltei a emocionar pelas mesmas fantásticas cenas, desde o primeiro encontro de Jim com os aviões japoneses no campo de concentração, além de sua lunática admiração pelo ataque do Cadilac dos céus (Deus, que plano lindo). Do roteiro veio o contraste por contar quantas casas tinham candelabros de cristal e a concepção da bomba de Hiroshima ser uma fotografia tirada por Deus. Com minhas repentinas lembranças pude concluir que era mais fácil concordar com esta idéia antigamente. Mas por outro lado, também percebi a película não tão magnífica assim. A racionalização e a critica capacitada por tantos outros me fez compreender que Spielberg vende a emoção sem muita sutileza e os bombardeios podem ser projeções para comodidade e segurança de toda a equipe.
 Pra tornar as coisas mais tridimensionais, houve um terceiro lado, do qual pude dar conta somente depois de sair da sessão. Entre os dois pontos de vista sobre a mesma obra, o mais importante está na múltipla interpretação ocasionada pelo cinema dentro de cada espectador. Este exemplo de arte, embora apresentado fora de seu período, pode proporcionar diferentes reflexões à medida que a experiência de vida de quem a concebe se modifica a cada dia. Pensando assim, reconheço o valor por recordar meus momentos cinematográficos, bem como rever os conceitos técnicos sobre eles enquanto volto a emocionar pelo conjunto da obra. O que acontecerá quando ler o exemplar de Ballard, inspirador de tudo isso?

Império do Sol de Steven Spielberg (1987)

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