O Redemoinho do Inferno Provisório

Em março de 2017 o Centro Cultural São Paulo (Vergueiro) inaugurou uma nova série de encontros com o objetivo de abordar a literatura com a intervenção de outros tipos de mídia. O evento de nome Ponto de Encontro – Leituras teve num de seus primeiros episódios a exibição do recente longa metragem nacional Redemoinho para que fosse discutido diante da obra adaptada Inferno Provisório (2016), concebida pelo premiado romancista Luiz Ruffato . Além de sua presença garantida no debate aberto público, ao seu lado estaria também o diretor José Luiz Villamarim para analisar a ideia da abstração de um texto literário naquilo que seria seu primeiro trabalho para a grande tela.

Redemoinho - Luzimar e Gildo
Gildo por Júlio Andrade e Luzimar por Irandhir Santos

Ao lembrar que o lançamento do filme em circuito nacional havia ocorrido semanas antes, bem no Carnaval, não tive a oportunidade de conferi-lo devido a grande concorrência dos vencedores do Oscar, nomeados no domingo do feriado. E como se não bastasse, permaneceram apenas alguns dias em duas salas de toda São Paulo. Pelas divulgações da distribuidora Vitrine nas redes sociais e dos elogios das críticas, não pensei duas vezes em participar desse momento na expectativa de estender a habitual proposta de somente assistir e tomar suas próprias conclusões. Minha espera já fantasiava algo como José Saramago apreciando Ensaio Sobre a Cegueira (2008), da maneira retratada em José e Pilar (2010). Quem sabe com menos lágrimas, mas com grandes honras, claro.

Minha primeira impressão, formada durante e logo após a projeção, diz ter visto um longa muito bem construído tanto no que diz respeito aos aspectos técnicos como também no roteiro com auxilio indispensável de grandes atores. A direção demonstra enquadramentos deslumbrantes, entre certo distanciamento familiar em relação às personagens ao acompanha-los pelo cenário mineiro da pacata cidade de Catanguases (MG). A fotografia perfeita contempla a degradação da luz do entardecer para a noite entre ruas, fábricas e casas humildes, remetendo um contraste da convencional modernidade metropolitana.

Redemoinho - Luiz Ruffato e José Luiz Villamarim
Luiz Ruffato e José Luiz Villamarim na sala Lima Barreto do CCSP

A evidente atuação de Irandhir Santos como o operário Luzimar é mais uma prova de que ele pode se transformar em qualquer brasileiro, inclusive um mineiro nativo. E como pivô de sua instabilidade existencial está o gaúcho Julio Andrade, o antagonista com habilidade de trazer de volta os fantasmas mais obscuros escondidos no passado. O elenco também conta com importante participação de Dira Paes e Cassia Kis, cujas personagens não se safam da crise coletiva com chegada do filho pródigo. Os impasses caminham numa atmosfera de suspense como um quebra-cabeça montado vagarosamente por peças inconsistentes.

Para expandir a sutil adequação em tempos atuais, a imagem é um fator determinante de contemplação juntamente com um elemento notório em grande parte das cenas: o som. Sem trilha sonora, os ruídos produzidos pela cidade dominam a sensação perturbadora a ponto de serem discutidos no roteiro com a dedução de que, não importa onde, o mundo é de fato muito barulhento.

Redemoinho - O som ensurdecedor como personagem da trama
Luiz Ruffato e José Luiz Villamarim na sala Lima Barreto do CCSP

Ao final da sessão, lá estava eu no mesmo recinto do diretor, autor e editor, na espera de uma impressão a ser confrontada, no bom sentido, por episódios que não estavam presentes na tela. Algumas coisas fazem mais sentido ao saber que Villamarim levou mais de 10 anos para se dedicar ao argumento escolhido de seu conterrâneo e concretizar aquilo que seria o primeiro longa, levando em conta de sua maior experiência na televisão.

Não é a toa que Rufatto tenha gostado da ideia de compartilhar seu texto com uma equipe cinematográfica, já que o filme foi rodado em sua cidade natal. Além disso, pôde escolher Cassia Kis para ser a mãe de Gildo justamente por ter aparência física de sua própria mãe. Depois de tê-lo visto por seis vezes durante a divulgação pelo país, ele fala com orgulho dos personagens, agora animados, por serem pobres trabalhadores com a possibilidade de filosofar sobre a trajetória de vida.

Redemoinho - Dira Paes como Toninha
Dira Paes como Toninha e seu passado obscuro

Para complementar a densa adaptação literária, o vislumbre visual é justificado por ninguém menos que Walter Carvalho na direção fotográfica, somada a inspiração do diretor em incorporar as maneiras de Won Kar Wai ao observar sutilmente, quase sempre à espreita, o movimento dos interpretes enquanto a locomotiva passa por todos os cenários, plano a plano. Entre tantas cenas memoráveis, ainda há a eventualidade de homenagear o cinema nacional reproduzindo uma lembrança de Eles não usam Black Tie (1981).

Enfim, mesmo que o cinema seja puro entretenimento na sua grande maioria, o meu barato estava presente num turbilhão reflexivo diante de tantos temas abordados. Desta vez, fora a interpretação da arte através de meus olhos, ainda pude incorporar minha conclusão com fatos que jamais poderia imaginar se não estivesse presente com os responsáveis de tal feito. Tudo bem, sabemos que obra não estava disponível em todos os lugares, mesmo com o esforço da distribuidora local em rebater o império americano, mas ainda existem chances como esta na espera de serem aproveitadas. Talvez seja apenas mais um pequeno impulso para que o cidadão brasileiro possa se identificar com algo que ainda faz parte de sua cultura.

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